Em um dia desses, ajudei um vizinho de alguém
próximo a minha pessoa. Não sou Enfermeira, Médica ou exerço qualquer outra
profissão ligada à área da saúde. Mas busco ser solidária. Tento ser.
É a segunda vez que eu o ajudo. Ajudo a
restabelecer alguma reação física, porque emocional, bem, a coisa parece muito
complexa.
Entrando em um parênteses:
(Eu sou uma pessoa um tanto quanto crítica,
analítica, o que aos olhos de alguns, possa parecer um julgamento. E desculpa,
mas todos nós somos assim. De uma forma ou outra.
Ou deveríamos ser. Críticos e analíticos. Mas
sem necessariamente (e especialmente a quem não é próximo em grau de parentesco
ou grande amizade), falar isso à pessoa em questão. Ou sim. Sei lá.)
Saindo de um parênteses.
Pois bem, voltando ao vizinho de alguém próximo
que eu ajudei:
Quando o ajudei, percebi que algumas pessoas
estavam fora de sua residência. E um dos vizinhos, o ajudando diretamente.
Resolvi entrar para verificar se poderia ajudá-lo.
Me deparei com um semi-cadáver. Uma pessoa adulta,
com cerca de 55/60 anos, mas aparentando ter 80. Com aproximadamente 30 quilos.
Visivelmente desnutrido, possivelmente desidratado. Não por falta de dinheiro,
mas por uma coisa comum em nossos tempos: falta de amor. Dos próximos e de si
mesmo.
Esse senhor é solteiro, solteirão. Com certeza,
com grandes problemas psicológicos e de interação social. Uma alma muito
triste, uma dor gigante. Com uma não força para reagir. E não o julgo pela
falta dessa força. Algo foi acontecendo que ele deixou acontecer. E agora, não
sei se há tempo. Nessa (entendedores, entenderão).
Ele gritava de dor. Mas tenho certeza que a dor
física, não era maior que a emocional. Por que visivelmente, ele desistiu de
viver. Cansou.
Em um momento, ele disse: “Por que eu não posso
ir? Por que esse sofrimento?”
Eu entendi o para onde, seria esse “ir”. E independente
de minha visão espírita, eu não o julgo. E nada falei. Percebi que deixar
“ir”, diz mais respeito a nosso sentimento de apego por alguém de nossa
convivência do que ser empático ao que o outro está sentindo. Não que palavras
de conforto não ajudem, mas não sei até que ponto elas não soam fúteis. E com
certeza, julgar, nesse momento, não é a solução. Ás vezes, só fazer um chá,
pode ajudar. Ou não. Mas fazer um chá, ou ajudar ou não de alguma forma, em um
momento assim, fala mais de nós mesmos, que do outro.
Eu sou de Humanas. E por ser de Humanas, falo,
escrevo e me permito analisar sentimentos, muito. E com o passar dos anos, eu
cada vez mais entendo quem diz que não é de Humanas e prefere máquinas à humanos,
pois é mais fácil de entender. As máquinas.
Ou talvez até que se tornem imperfeitas
máquinas. IAs. Inteligências Artificiais. E daí, quando IAs com sentimentos,
imperfeitas.
Difíceis.
Imprevisíveis.
Bipolares sem serem bipolares.
Facilmente magoáveis. Que se decepcionam e
decepcionam. E muitas e na maioria das vezes, não sabem lidar com isso.
Pessoas que não sabemos lidar com nossas
imperfeições, e que julgam elas como erros fatais. O que nem sempre são.
Nossas tristezas são derivadas de tudo que não
nos estruturamos para sentir. E cada vez mais, vivemos um mundo difícil de
lidar com isso.
De lidar com nossas e com as dos
outros, imperfeições.
O que nos mata, não é o suicídio. São nossas e
as dos outros, imperfeições. E o quanto nós e os outros de nós mesmos,
conseguimos evoluir. Aprender. Aperfeiçoar.
Ou simplesmente, chegar a um limite de não
querer mais. De dizer que chega. De dizer que já tentamos e cansamos.
E isso não é uma justificativa a qualquer forma
de suicídio. É uma análise não julgatória. Se existe a palavra julgatória.
PS: O suicídio não é uma covardia ou ousadia.
Ele simplesmente, é uma atitude perante sentimentos enclausurados, que gritam
no peito. E tenho a impressão que à exceção de suicídios a exemplo desse
senhor, que se mata aos poucos, os suicídios mais radicais, cometidos por atos
aparentemente intempestivos, acontecem por decisões e atitudes tomadas em
segundos e por detalhes. São os detalhes que formam o todo. E precisamos estar
atentos aos detalhes. Ter menos preguiça empática. Isso é fácil? Não, não é. E
precisa de prática para atingir a perfeição. E dói, o quanto mais próximo, for o próximo.
E a perfeição da
prática empática, só vêm com anos, anos de inclusive, muitas não somente DESSA.
Que a gente
possa fazer mais chás pelos outros.
E isso não é fácil.
Especialmente
quanto mais próximos, forem esses outros.
PS 1: Sou
profundamente agradecida a todos que são amigos e têm carinho e atitudes de
apoio pelos e aos meus próximos mais próximos. Por que nós humanos, de alguma
forma estranha, temos a péssima mania (sei lá, se é mania), de escutar os menos
próximos a nós mesmos.
PS 2: Ajudar a
quem amamos parece-me lógico e humano. Mas ajudar àqueles que aparentemente,
não envolvem nossos sentimentos mais ligados ao apego humano, é diferente. Nos aproxima
de Deus, talvez. Como se fôssemos instrumentos. Anjos naquele e daquele
momento. Talvez. Seja. E isso não é ser superior. É apenas enxergar com a alma. E abrir os olhos da mente. Que não mente. E sente. Muito. Mais.
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