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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cuide de VOCÊ. E de NÓS



Seria o amor o maior sentimento do mundo? Bem, que ele é ótimo, vibrante e mágico, ninguém duvida. Mas quando termina, pode ser uma tragédia grega... ou não (e não se iluda, pessoinha de 10 anos que está lendo esse blog: sinto muito, mas um dia, ele termina. Ou na verdade, será que terminam com ele?).

Ei, turma: se você entrou nesse blog esperando um conceito “meigo” sobre o amor, vai ter uma surpresa... não desiste e vai até o fim, tá bem?

Penso que a questão mais importante não é quando termina, mas COMO termina. Sim...

Sabe, tive uma assistente que dizia: “Tem que cultivar”. Outros dizem: “Deixe uma porta aberta”. Mas acho que o mais sábio, em termos de amores e dores de amor, é “Faça do limão, uma limonada”. Mas uma limonada que possa ser digerida/bebida pelos dois lados, digo eu.

Sophie Calle é uma pessoa que fez do limão, uma saborosa limonada (a questão é: foi bebericada pelos dois lados?). Criticas e críticos a parte, a verdade é que ela foi uma mestra na arte da superação. Mas... e o outro lado?

Ai tem outra questão: o quanto ela respeitou seu ex namorado? Peraí, você vai entender, mas tem que ler esse texto/post, até o final, combinado?

Ah, tem aquela também, que circula pela internet: a menina que levou um “fora” do namorado por email, e ele ainda por cima pediu de volta sua foto (essa coisa por email está virando moda, ai, ai, ai). Escuta (leia) só o que a namorada “escanteada” respondeu: “Estou mandando várias fotos de ex namorados (e são muitas fotos), e por favor, separe a sua e mande-me as outras de volta, ok? Peço desculpas, mas esqueci como você é fisicamente.” Hello! Esse mereceu, o que você acha?

Mas voltemos ao case Sophie Calle. Entenda-o:

104 mulheres interpretam uma carta de rompimento que Sophie Calle recebeu, do seu então namorado Gregoire Bouille, e dão forma à dor da artista. Cuide de você, virou exposição e traz interpretações textuais, traduções da carta em braile, código Morse, estenografia, código de barras e outras linguagens gráficas, além de retratos de cantoras e atrizes atuando, e filmes que registram interpretações-performance da carta.

Exibida pela primeira vez na Bienal de Veneza, em 2007, e a seguir na França, no Canadá e nos Estados Unidos, Cuide de Você é um trabalho que não distingue ficção da realidade. A artista francesa, Sophie Calle, sempre predisposta a exceder seus pudores, já foi stripper em um clube no bairro de Pigalle, em Paris, e depois performer. No final da década de 70 sua atuação também incluiu outros campos como literatura, cinema e textos em série para jornal diário.

Para palpitar sobre a carta, Sophie convidou advogada, adolescente, atrizes, cantoras, consultora de etiqueta e protocolo, criminologista, jogadora de xadrez, mãe, mágica, psicanalista, vidente e muitas outras mulheres com pontos de vista diferentes.

"Recebi uma carta de rompimento. E não soube respondê-la. Era como se ela não me fosse destinada. Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”. Levei essa recomendação ao pé da letra. Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão, para interpretar a carta do ponto de vista profissional. Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la. Entendê-la em meu lugar. Responder por mim. Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper. Uma maneira de cuidar de mim." (by Sophie Calle)

O que eu acho desse case? Bem, existem 2 ângulos a serem analisados:

1) Ele pode ter sido um tanto frio, ao terminar a relação por carta/email
2) E ela, ao expor seu caso pela internet, pode ter sido vingativa

Existem aqueles que dizem que isso é dar a volta por cima, dar um tapa de luva, entre outras coisas consideradas corajosas. Mas, ao meu ver, precisamos separar “dar a volta por cima” da falta de respeito: por si mesma, e pelo outro. Ainda acho que o silêncio e a indiferença podem ser o melhor remédio. Não condeno, mas não faria da mesma maneira.


E para os curiosos e curiosas de plantão, eis a carta-mail:
“Sophie,
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência . Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a "quarta". Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as "outras", não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e "generoso", se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu "desassossego" se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as "outras". E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,?) e compreensível (obviamente?); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide de você.”


De qualquer maneira, receber um email assim, sem aviso prévio, é bem marcante (prá não dizer um pouco chocante), concordo. Mas com certeza, ver exposto um amor, de qualquer maneira, acaba fazendo com que ele passe de amor, para qualquer outro sentimento. Sentimentos que eu não quero especular aqui... mas com certeza, aquilo que Bouille escreveu na carta-mail (“.....saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.....”), depois da atitude dela, deve ter ficado difícil de cumprir.

A verdade é que sempre existe causa-efeito em tudo.

E como seres pensantes que somos, acho que deveríamos praticar mais a arte do FIM, do THE END. E aprendermos a lidar com os finais que nem sempre são os “e viveram felizes para sempre”. Puxa, saber começar é ótimo. Mas saber terminar, ah.... isso é uma arte. A maior de todas as artes, que pode construir a maior de todas as obras-primas: a nossa própria vida.

Carinho, respeito, consideração e especialmente empatia. Atributos necessários a qualquer ser humano que se lança na grandiosa arte do amor.

Vamos realmente cuidar de nós mesmos. E daqueles que um dia, dissemos amar.

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